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Energia: ‘Fóssil e renovável conviverão ainda por décadas’

Margem Equatorial: 'Temos muito potencial e a Petrobras é “craque” nesse modelo de exploração' (Foto: Nominuto.com)

O CANAL DA ENERGIA entrevista, neste domingo (9), o presidente da Redepetro RN, Gutemberg Dias. Na conversa, o empresário analisa o atual cenário do setor de petróleo e gás na região de Mossoró e destaca a atuação de entidades públicas e privadas na retomada do crescimento da exploração e produção na Bacia Potiguar.

Também discorre sobre descarbonização e o papel dos combustíveis fósseis nas novas perspectivas da transição energética.

 

Confira.

  

CANAL DA ENERGIA – O senhor preside a Redepetro desde 2015. Desses oito anos,  acredita que o setor de petróleo e gás vive o melhor momento em termos de reaquecimento de negócios e perspectivas de mais crescimento?

 

GUTEMBERG DIAS – Quando assumi a presidência da Redepetro RN, o setor de petróleo e gás estava um caos. Demissão de colaboradores em massa, empresas fechando as portas e/ou mudando de segmento. Era um cenário extremamente difícil para todos que dependiam diretamente da cadeia de petróleo e gás no âmbito do estado do Rio Grande do Norte. Mas, graças a uma junção de fatores e, sobretudo, à persistência de entidades como a Associação Brasileira de Produtores Independentes de Petróleo (ABPIP), Redepetro RN, Sebrae, entre outras, a pauta da retomada do onshore, a partir da produção das operadoras independentes, foi exitosa. Hoje temos um mercado onshore em aquecimento e muitas empresas fornecedoras ampliando seus negócios e, dessa forma, contribuindo significativamente para o reaquecimento da indústria e geração de emprego e renda. Não me resta dúvida que, se mantendo o modelo de negócio para o onshore brasileiro, a perspectiva é de contínuo crescimento.

 

CE – Podemos creditar esse novo momento à chegada dos operadores independentes na região?

 

GD – Em grande parte, sim. Mas não podemos deixar de afirmar que houve uma convergência dos atores que fazem o mercado para que isso fosse possível. Como disse, várias entidades privadas e públicas se uniram numa lógica de retomada do onshore, e isso deu muito certo, culminando com a transferência dos ativos da Petrobras, que até então detinha mais de 90% das operações, para os operadores independentes. Essa mudança gerou uma nova dinamização no setor. Um bom exemplo aconteceu na Bacia Potiguar, onde observamos uma retomada das atividades de empresas fornecedoras. Sempre gosto de dar o exemplo dos associados Redepetro RN. Quando assumi a presidência, tínhamos algo em torno de 13 empresas associadas. Hoje, já somos mais de 40. Ou seja, gradativamente tivemos uma retomada de associados e muito atrelado a melhora nos investimentos no setor.

 

CE – No início de junho, a operadora independente 3R Petroleum concluiu a compra do Polo Potiguar junto à Petrobras. Com isso, toda a exploração e produção de óleo e gás no estado está nas mãos da iniciativa privada. Quais os pontos positivos e negativos desse novo cenário para o setor?

 

GD – Os pontos positivos consistem na retomada da produção de áreas que atualmente estão com baixa produção. Não tenho dúvida que iremos ampliar a produção nos próximos meses. Isso aconteceu com os outros polos adquiridos anteriormente como Riacho da Forquilha (PetroReconcavo) e Macau (3R Petroleum). Já estamos sentindo no dia a dia os reflexos desse processo junto às empresas fornecedoras, já que existe uma demanda crescente por contratações locais de serviços. Outro ponto positivo foi a retomada dos postos de trabalho. Cito que não se compara aos tempos áureos, mas isso é perceptível nos dados do Caged e se expressa, também, ao começarmos a ver pessoas circulando com fardamento das empresas pelas ruas de Mossoró, fato que era muito comum antes do desinvestimento no setor. Mais um ponto positivo é o aumento das compras de materiais e serviços locais.

 

CE – E quanto aos pontos negativos?

 

GD – Em relação aos pontos negativos, podemos citar a redução da massa salarial, ou seja, com a saída do contingente de funcionários da Petrobras a média salarial registrou uma queda, mas, mesmo assim, esse setor paga salários de três a quatro vezes maior que o mercado em geral.

 

CE – O recente anúncio da Petrobras da perfuração de dois poços no campo marítimo de Pitu, na Costa Branca, amplia a fronteira para o offshore. É algo que, naturalmente, também anima a cadeia produtiva na região?

 

GD – Certamente. A Petrobras, ao retomar as explorações na Margem Equatorial, nos dá um grande alento para o futuro exploratório de petróleo em águas profundas na costa do Rio Grande do Norte. Temos muito potencial e a Petrobras é “craque” nesse modelo de exploração. Eu, particularmente, acredito que, com a empresa, dando foco na exploração e extração de óleo nesses campos marítimos, poderemos ter grandes surpresas quanto ao aumento de produção de óleo na Bacia Potiguar. Costumo dizer que a expertise maior da Petrobras é produzir óleo em grande escala e isso, certamente, irá favorecer o nosso estado.

 

CE – O mundo vive uma corrida pela descarbonização, com redução no uso de combustíveis fósseis e aposta nas energias renováveis. Diante desse processo, como o senhor enxerga o setor de petróleo e gás nos próximos anos?

 

GD – Continuará forte por algumas décadas. A transição energética segue um ritmo importante, mas não desbancará tão facilmente a energia oriunda desse combustível fóssil. Sou daqueles que penso num processo de cooperação energética e não numa transição como é posto amplamente. A matriz energética mundial é muito dependente das matrizes fósseis. Países como o Brasil, que tem recursos naturais como vento e sol abundante, terá maior facilidade nesse processo. Mas, mesmo assim, não vejo grandes mudanças a curto prazo. Um exemplo é a Alemanha, que tem previsão de fazer sua transição total apenas em 2050, ou seja, daqui a quase três décadas, mesmo sendo um país desenvolvido e forte no segmento de inovação. Certamente, os países em desenvolvimento terão grandes dificuldades.

 

CE – A Redepetro RN congrega empresas de diversos nichos e forte atuação no setor de petróleo e gás. Como essas empresas estão se preparando para esse movimento da descarbonização, de transição energética?

 

GD – Ainda não temos um movimento forte nesse sentido. São poucas as empresas que desenvolvem ações voltadas a esse processo de transição/cooperação energética. Algumas empresas nos momentos mais difíceis do setor, migraram suas atividades para atender o setor de renováveis, mas sem ter um papel preponderante no processo de inovação. Acredito que é preciso a Redepetro RN, em parcerias com outras entidades e com o meio acadêmico, iniciar um processo de construção de um novo circuito espacial de produção que possa, efetivamente, inserir as empresas locais no processo de inovação do setor, para não serem apenas fornecedoras de mão de obra.

 

CE – Para concluir, qual a mensagem geral o senhor deixa sobre o atual momento e perspectivas futuras do setor energético, tanto em relação à demanda por petróleo e gás quanto em relação às fontes renováveis?

 

GD – Sou um entusiasta dessa retomada da produção de petróleo e gás onshore no Brasil e acredito que a médio e longo prazos teremos muito mais empresas produtoras de petróleo e gás atuando no mercado brasileiro, inclusive empresas pequenas como ocorre no EUA, Canadá e em alguns outros países. Isso fará com que tenhamos um aumento gradativo de produção. Em relação às fontes renováveis, acredito que o mundo vive um grande investimento nesse setor, mas que precisamos pensar a transição energética a partir do conceito de “cooperação”, ou seja, a matriz fóssil e a renovável conviverão ainda por décadas.

Câmara

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